Eu não acredito que só se aprenda pela dor e pelo sofrimento. Sem dúvida que grandes ensinamentos vêm de experiências dolorosas, mas nem todas as transformações têm que ser feitas através da dor.

Num Universo tão ilimitado como o nosso, numa panóplia tão vasta de emoções e sensações porque aprenderíamos só pela dor? Podemos aprender também pela coragem, pelo prazer, pela alegria, pelo êxtase…

Talvez haja alguma influência cultural e religiosa que faz com que nos foquemos demasiado no sofrimento. Porém atribuir a responsabilidade a factores externos é retirar-nos poder. Pessoalmente penso que há dinâmicas individuais inconscientes que nos fazem agarrar à nossa dor. Mais ou menos conscientemente, escolhemos manter-nos na nossa dor.

Pode ter sido a forma que encontrámos para sobreviver a alguma experiência tão marcante, tão dolorosa que uma parte de nós morreu e é a dor nos mantem ligados a ela. Se assim for, reconectar-nos com o que nos falta, resgatar-nos é a solução.

artworks-by-lente-scura-part2-18Poderemos também precisar da causa da nossa dor, seja um comportamento, uma pessoa, uma lembrança, uma emoção, um pensamento para obter um determinado resultado. Muitas pessoas só recebem atenção e amor quando estão doentes ou tristes, logo sabem que mantendo-se nesse estado vão receber atenção e amor. Estas pessoas só poderão sair deste ciclo ganhando consciência do seu padrão e aprendendo estratégias para preencher os seus vazios de forma mais saudável.

Podemos precisar também da dor porque é aquilo que ainda nos diz que estamos vivos, porque, algures no caminho, foi assim que aprendemos a estar vivos. Nestes casos as pessoas costumam embrenhar-se em relações ou actividades perigosas para se sentirem vivos, acarretando todas as consequências que daí resultem. Estas pessoas precisam de reaprender a ser elas o motor do seu entusiasmo, vigor e vontade de estar vivo.

Outras vezes é a dor que nos mantem ligados a alguém (que até podemos considerar nefasto para nós), mas é a dor que nos dá o poder sobre o outro. É o que eu chamo do poder da vítima sobre o agressor: “Se te libertar, ficas impune. Se continuar com mágoa, tu também estás preso”. No nosso íntimo sabemos que não é justo colocar esse peso nos ombros de alguém, nem é justo para nós deixarmos que alguém tenha essa importância e continue a comandar a nossa vida. Porém há razões inconscientes que nos fazem continuar presos ao que nos fizeram. É essencial descobrimos que razões são essas para as podermos desconstruir e reabilitar.

Não podemos esperar para estarmos bem para libertarmos o que já não nos serve. Só quando libertamos o que já não nos serve existe espaço para a cura. É a nossa forma de dizer
que já não estamos dispostos a reter algo doente e isso é uma mensagem mais ampla para o Universo de que não queremos doença e sofrimento na nossa vida. A cura pode então acontecer também de forma mais ampla nas nossas vidas. Novas pessoas e novas experiências, mais saudáveis e equilibradas têm então espaço para entrar na nossa vida.

Lembra-te que a cada momento tu escolhes através dos teus sentimentos, pensamentos e acções que mensagem envias à Vida e a cada instante a Vida devolve o que escolhes.

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