Há uns meses comecei a perceber que podemos escolher as pessoas que amamos.

Não é depois de estarmos completamente embrulhados (e porque não? Porque depois de lá estar temos que ser prisioneiros com a chave na mão?). Mas refiro-me mais àquela fase inicial, em que a atracção começa, em que muitas vezes sabemos que nos vamos meter numa “fria” porque aquela pessoa é o salto no abismo. Em que todos os nossos instintos nos dizem “salta, fora!”.
Acredito que nessa fase é mais fácil escolher. Escolher-nos a nós mesmos e ao que é melhor para a nossa vida e para o que queremos ser.

Pois, há quem diga que se se escolhe é porque não é amor verdadeiro. Mas quem tem relações duradouras sabe que, muitas vezes, amar é mesmo uma escolha, porque há dias, semanas, fases em que quem está ao nosso lado é a última pessoa por quem nos apaixonaríamos agora. Mas amar e estar lá é uma escolha.
Nos maus momentos, muitos pensam em saltar fora, mas ficar e amar é uma escolha.

Um dia ouvi alguém dizer que não podemos deixar decisões sérias, a nossa vida toda entregue às pulsões do desejo e da atracção.
Quantas vezes não somos atraídos exactamente por tudo o que sabemos que nos faz mal? Que nos vai fazer sofrer? Pelo abismo? E aí não será boa ideia parar e sentir para que caminho, já tantas vezes já percorrido, nos estamos a dirigir?

É uma visão muito romântica aquela em que somos acometidos por uma paixão avassaladora que nos faz agir apenas pelos sentidos e pouco com a sabedoria, a consciência. Essas paixões, volta e meia, resultam, entre outras consequências, em gravidez indesejada ou doenças sexualmente transmissíveis. Outras ainda resultam em morte porque a violência instala-se e lá vamos ficando porque nos deixámos embrulhar num amor tóxico, apesar de sempre terem estado todos os sinais (nem sempre estão, mas muitas vezes sim).

Há quem justifique as paixões NÃO-SEI-O-QUE-É-ELE(A)-TEM-MAS-NÃO CONSIGO-AFASTAR-ME com karma, com vidas passadas.
Então, mas o objectivo de equilibrar o karma não é fazer diferente, mas agora em consciência? Não é sair dos padrões que lhe deram origem? Que sentido faz estarmos a equilibrar um karma que nos faz sofrer?

Mesmo que tivessemos feito muito mal a alguém, a Vida não nos pede sofrimento e punição. Pede-nos, sim, a assunção da responsabilidade e a consequente libertação de todos os envolvidos, para concretizarmos a incontornável capacidade que todos temos: sermos felizes.

Sim, acredito que podemos escolher. Resta saber se o queremos fazer. Se queremos tomar as rédeas da nossa vida e do nosso Coração.
Resta saber se queremos continuar a entregar o Coração aos outros, abdicando do nosso direito de nascença de sermos e estarmos completos, por nós mesmos. Sem aditivos.

Talvez não precisássemos do Coração dos outros para preencher os nossos vazios se, para cuidarmos dele com o Amor que mais ninguém poderá sentir por nós, ficássemos com o nosso Coração bem aconchegado no nosso peito, no Centro da Vida.

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