Há uns dias, a propósito de injustiças, uma amiga comentava comigo “Gosto muito de Deus, mas, às vezes, Ele deixa-me algo confusa”.

Aquela frase lembrou-me que, durante anos, andei, não confusa, mas zangada com Deus.
Não entendia muito do que se tinha passado comigo, desde muito nova.
Ser filha de Pais separados desde muito pequena, não ter uma família unida como as das minhas amigas, estar longe dos meus irmãos, as tentativas de abuso por diversos homens na minha infância, a falta de uma bússola coerente na minha vida.
O resultado foi uma profunda solidão interna, o crescimento prematuro emocional e psicológico para sobreviver, muitas escolhas equivocadas na minha vida, em especial quanto aos homens que escolhi para formarem comigo uma família, e uma frustração crescente.

SEGUIDORA ESPIRITUAL
Tudo isto me levou a criar uma falta de fé em mim mesma que ainda sabota algumas áreas da minha vida.
Esta falta de fé em mim e num potencial que todos viam, menos eu, fez com que entregasse o meu poder a outras pessoas. Os outros sabiam melhor sobre o que fazer com o meu potencial. Achava eu.
Tornei-me uma seguidora, em especial de “Professores Espirituais”.
Analisando com honestidade a minha vida , sei que nunca fui uma seguidora. Sou uma líder. Mas tenho tendência para me esquecer disso.

Ser-se um seguidor em termos espirituais é um risco muito grande. É o nosso poder entregue a um deus menor (porque também há ali uma Sombra que se alimenta da força da nossa Luz e da nossa própria Sombra). Colocamo-nos numa posição potencialmente auto-destrutiva.

Percebo agora que ser seguidora tinha um duplo papel. Para mim, tornava-se algo confortável, porque não tinha que manifestar a minha criatividade. Mas, também ,era uma forma de ceder à vontade de quem eu seguia, de se sentir especial, superior e dono da verdade. À superfície tudo parecia bom, bonito e saudável. Eu sentia que era uma Amizade mútua verdadeira, sem interesses e honesta.

RENASCER

A verdade é que, estando eu muito consciente do meu caminho espiritual, comecei a sentir o apelo da minha Alma. A minha Alma insurgia-se contra esta minha postura de “seguidora”.
Há tanto para criar em mim, para viver o que realmente sou que era insustentável manter-me ali.

De alguma forma, quem eu seguia pressentiu esse grito da minha Alma e ajudou no processo.
Doeu muito. Não o afastamento, não o deixar de ser seguidora, mas doeu a forma como tudo aconteceu, os elos de Amizade que se quebraram e como permiti que, durante dias me dissessem, directa e indirectamente, o que quiseram dizer, humilhando, insinuando, sem qualquer respeito, amor ou compaixão, escondendo-se com a máscara “é para teu bem”.

Durante dias, semanas, essas palavras e gestos ressoaram dentro de mim. Combati-as com todas as minhas forças, para não deixar que destruir-me por elas, como profissional, como amiga, como mulher, até como cidadã.
Virei para dentro. Ouvi os meus Aliados Espirituais que me enviaram todo o tipo de mensagens, inclusive através de Anjos que vivem na Terra e que, nos meus piores momentos, me mostraram que a minha Luz é muito maior do que a minha Sombra.

Ao mesmo tempo, numa altura de tão grande reboliço interno, montava o meu novo espaço. E terminava, inesperadamente, uma relação com mais um homem com quem queria formar uma família.

Mas desta vez não me zanguei com Deus. Percebi que Deus sabe bem o que faz. Deus estava a mostrar-me um caminho novo dentro de mim.
A fé e o amor-próprio começaram a emergir, com vigor e determinação.
Indignei-me, não com Deus, mas com as pessoas e situações envolvidas. Zanguei-me, chorei (chorei muito), bati o pé. Não só com os outros, mas comigo também.
Depois, finalmente, consegui, pela primeira vez, ser condescendente comigo mesma, enrolar-me e chorar, pedir ajuda e receber colo, de dizer a mim mesma “pára, esquece as responsabilidades e deixa-te estar”.

Aceitar a Luz e a Sombra em mim permite descobrir-me na Vida. Aceitar que estava num momento muito escuro, muito sombrio, senti-lo plenamente, e vivê-lo ajudou-me a passar por tudo mais rapidamente.
E algo extraordinário aconteceu: deixei de me sentir uma vítima, uma sobrevivente.

Sou uma renascente. Cada uma destas pequenas mortes, me ajudou a renascer. Todas as pequenas mortes na minha vida me ajudaram a renascer, permitindo-me descobrir e viver o que realmente Sou.

A falta de uma estrutura familiar convencional, deu-me espaço para crescer sem limitações. Deu-me também abertura para encontrar boas oportunidades em todas as circunstâncias, situações e pessoas, para encontrar sempre o lado bom em tudo. Alguns chamam-me optimista idealista, eu vejo-me como uma descobridora. Descobrir o bom em tudo e em todos, ajuda-me a usufruir a Vida com o que tem para dar, mesmo que não seja tanto quanto o que eu estou à espera.

O PERDÃO

E, assim, hoje não estou nada zangada com Deus. Nem estou zangada com ninguém sequer. Muito menos comigo mesma.
Estou grata por tudo e a todos os que me colocaram desafios, porque me ajudaram a concretizar o que sou e a manifestar o que quero na minha vida.
Isto quer dizer que me esqueci do que me aconteceu? Que perdoei? Que libertei tudo? Não.
Não esqueço, porque faz parte da minha vida e ajudou-me a chegar ao ponto fantástico em que estou hoje.
A algumas pessoas e situações já perdoei. A outras não.

Para mim, o perdão não é uma simples palavra. É algo muito mais profundo.
Tenho direito a indignar-me, a revoltar-me. Não o fazer é negar não só a experiência, como as minhas emoções. É varrer para debaixo do tapete o mais essencial do se ser ser humano: as emoções.
Tenho aprendido que, como somos todos UM, as nossas acções (as mal e as bem intencionadas) podem ser forças destrutivas na vida dos outros. Viver sem a consciência da Unidade a que pertencemos, torna-nos carrascos de nós mesmos, porque tudo o que fazemos a outro, acabamos por fazer a nós mesmos.
Por isso, quando alimento a raiva pelo outro (atacando-o ou mantendo-me como vítima) estou a alimentar a raiva por mim mesma. E quando liberto com perdão profundo, as minhas acções podem ser impulsionadoras não só na minha vida, como na dos outros.

Por isso, depois de me indignar, preciso de olhar para o que as situações e as pessoas espelhavam de mim, aceitando que o que me foi mostrado pelos outros já existia dentro de mim. Pergunto-me “Como posso reverter isto a meu favor? Como posso transformar este momento-Sombra numa Vida de Luz?”. Isto faz com que me sinta parte do processo de cura. Faz com que me sinta com poder para mudar o futuro (afinal há um Deus dentro de mim!).

Se entender esta lição da vida, já não preciso de passar por ela novamente. Vou passar por outras, mas isso faz parte de estar vivo, realmente vivo!
Perceber as lições por trás de cada experiência, evita que eu alimente a raiva e ajuda-me a chegar um estado de gratidão e à libertação. À minha libertação!!

Estar grata não é aprovar o que aconteceu, o que os outros escolheram fazer (mesmo que estivessem a servir de meu espelho). É tornar a dor em algo maior.

Quando chego a esta fase, não preciso que me peçam perdão, que reconheçam o mal que me fizeram. Só preciso de mim para me libertar. Mudo a minha perspectiva e a minha reacção. Eu posso viver o que os outros fazem ou são mantendo-me centrada com a minha Luz, ciente de quem Sou.É a minha postura perante mim própria que determina a importância do que os outros fazem. Quanto mais me liberto do poder que os outros têm sobre mim, mais perto fico do perdão.

Uma das lições mais importantes que retiro dos acontecimentos dos últimos meses é que Sei quem Sou. Se não soubesse, não conseguiria passar por estes desafios da forma que o faço.
Também é verdade que os Anjos na Terra me ajudaram com o seu Amor. Continuo a acreditar na Amizade, na pura e verdadeira.

Hoje posso dizer que me estou a libertar gradualmente. Nunca me senti tão criativa, criadora, empreendedora e confiante.
Por isso, hoje, consigo escrever sobre isto. Cheguei finalmente a um porto seguro dentro de mim em que posso abrir o coração, ser vulnerável.

UM DEUS MAIOR
Os verdadeiros Professores Espirituais são os que nos inspiram a descobrir quem somos, com Amor. Mesmo que o que somos seja diferente que eles são e acreditam. São os que se colocam numa posição de verdadeiros aprendizes, porque todos somos Professores. São todos os que se cruzam connosco e somos nós mesmos.
Porque, também, dentro de cada um de nós vive um Deus Maior.

Por Cláudia Félix Rodrigues (www.1000caminhos.com)

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